Dose Dupla #2 Um encontro sem hora marcada

Atualizado: Jul 4


Sonhos foi o tema do nosso segundo encontro. Quando morávamos juntas (Carol e May), sempre trocávamos figurinhas sobre nossos sonhos da noite passada. Na live, falamos mais um bocado sobre esse universo do subconsciente, trazendo a vocês livros da nossa estante e comentando sobre pessoas relevantes que também dialogam com o mundo de Morfeu.


Escute a live Dose Dupla da @abancavermelha na íntegra:


1_ Biblioteca


_Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak/Companhia das Letras

por Carolina Rolim


Esse foi o primeiro livro que li em 2020, sem saber que ele se tornaria bibliografia fundamental, uma grande bússola, principalmente em meio à pandemia. Peguei emprestado da biblioteca de uma amiga (e está bem guardado aqui, até que eu possa devolvê-lo!) e a sensação que tenho é que nunca mais quero me separar das palavras e da lucidez de Krenak. Recentemente, vi uma entrevista com ele, no canal do youtube do The Intercept (https://www.youtube.com/watch?v=6XoRg3nj1Ws), e foi brilhante! Fiz muitas anotações, assim como fiz quando li “Ideias para adiar o fim do mundo”. O livro é uma adaptação de duas palestras e uma entrevista realizadas em Portugal, entre 2017 e 2019. Deixo aqui um trecho do livro muito marcante para mim:

“Quando eu sugeri que falaria do sonho e da terra, eu queria comunicar a vocês um lugar, uma prática que é percebida em diferentes culturas, em diferentes povos, de reconhecer essa instituição do sonho não como experiência cotidiana de dormir e sonhar, mas como exercício disciplinado de buscar no sonho as orientações para as nossas escolhas do dia a dia.”

Lembrei que uma vez, ao sonhar com uma baleia, acordei faminta pelo significado em um livro de cartas xamânicas. O texto abria com uma reza:


“Baleia, Da totalidade dos oceanos Você tem visto tudo Segredos de todas as eras São ouvidos com seu chamado Ensine-me Como ouvir suas palavras E como entender As muitas rotas da história”

Krenak fala do sonho não como uma experiência onírica, mas como um caminho de aprendizado e de autoconhecimento.


“Para algumas pessoas, a ideia de sonhar é abdicar da realidade, é renunciar ao sentido prático da vida. Porém, também podemos encontrar quem não veria sentido na vida se não fosse informado por sonhos, nos quais pode buscar os cantos, a cura, a inspiração e mesmo a resolução de questões práticas que não consegue discernir, cujas escolhas não consegue fazer fora do sonho, mas que ali estão abertas como possibilidades.”

Podemos entender as experiências dos sonhos desenvolvendo a habilidade de recordá-los, anotá-los e ler sonhos passados como uma importante ferramenta de comunicação com as profundezas da nossa própria mente. E assim, aprender a decodificar essas mensagens para criarmos uma realidade mais sensível e cheia de sentido.


_Zine Intempéries, de Isadora Ferraz/Atelier Feito em Casa

por Mayara Maluceli


Intempéries (disponível aqui na Banca Vermelha) antes de tudo é um zine de axé e espiritualidade, para elevar o ser interior e alçar voos. O zine surgiu de uma imersão que Isadora Ferraz fez durante uma semana, em 2019. É um livro-imagem, uma história sem palavras em que a imagem narra por si só.

“Traz o enigma e a inquietude da matéria do sonho. mostra o quão necessários são esses elementos para compreendermos o início de uma transformação” Rafael Kenji

Em uma série de desenhos feitos com a técnica monotipia, o leitor entra nesse universo onírico, de suspense e suspensão. Há uma brincadeira muito interessante de perspectiva, ao mesmo tempo de mudança da figura na imagem.


É impossível não relacionar com as produções de Miyazaki, como a Viagem de Chihiro e o Castelo Animado.


2_ Biografia


_Claudia Andujar

por Carolina Rolim


Minha vontade de falar sobre Claudia Andujar veio de uma conexão que fiz com a exposição “Sonho verde azulado”, em cartaz no Centro Cultural dos Correios, prédio histórico na região central de São Paulo, de 2012 a 2013. Eram retratos de uma criança yanomami, expostas em dimensões gigantescas, feitos no primeiro contato que Claudia teve com os indígenas do Catrimani, e que ela refotografou usando filme fotográfico infravermelho, utilizado de forma recorrente em sua trajetória como fotógrafa. Esse tipo de filme era bastante usado por expedições aéreas (muitas vezes militares) para análise geológica de terrenos, como por exemplo, as do projeto Radam (mais infos a seguir).

Claudia Andujar é fotógrafa e ativista, conhecida pela sua relação e luta em defesa dos índios Yanomamis. Nascida na Suíça em 1931, foi vítima da perseguição nazista na Segunda Guerra Mundial, e em 1955 chegou ao Brasil. Começou a fotografar por não falar o idioma: era uma maneira de se comunicar com as pessoas. Em 1966, começou a trabalhar para a revista Realidade e em 70 colaborou em uma edição especial sobre a Amazônia, que marcou seu primeiro contato com a terra Yanomami.


Naturalizou-se brasileira em 1976, mesmo ano em que recebeu bolsa da Fapesp para continuar a documentação fotográfica dos Yanomami. Nesse mesmo ano, o mapeamento aerofotogramétrico do projeto Radam identifica ouro, urânio e cassiterita na terra indígena, o que atrai garimpeiros e mineradoras: é o início do genocídio yanomami, com poluição de rios e epidemias devastadoras.


O trabalho “Sonho verde azulado” resgata o imaginário idílico e subjetivo de Claudia Andujar sobre a Amazônia. “Paxo+m+k+ é a menina verde-azulada em exposição. Tranquila, deitada na rede, na floresta, perto do rio, sonha do mundo verde, exuberante, seu mundo, escutando o burburinho do rio, atravessando a densidade milenar das árvores, ela admira em silêncio a cor densa, azulada do céu, filtrada pela copa das árvores, escuta o canto dos pássaros. É o mundo em que nasceram e cresceram todos os Yanomami como também Paxo+m+k+, pertencendo ao universo verde azulado.” (do site da Galeria Vermelho)


Parte da pesquisa para esse texto foi feita com base no catálogo da exposição “Claudia Andujar | A Luta Yanomami”, em cartaz no Instituto Moreira Salles de SP, em 2018.


_Sidarta Ribeiro

por Mayara Maluceli


Sidarta Ribeiro é um neurocientista e diretor do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Há praticamente trinta anos, o pesquisador estuda o sono, os sonhos e os efeitos curativos encontrados em plantas como a cannabis.


Para comprovar a importância do sono, o neurocientista testou jovens estudantes. Os resultados indicam que o sono aumenta a duração da memória, favorecendo a fixação do conteúdo aprendido. A soneca, em outras palavras, deveria ser mais usada nas escolas.


Fruto dessa imensa pesquisa é o livro “O oráculo da noite - a história e a ciência do sonho" que nos chegou por meio de @carlao126 que nos apresentou à obra, em nosso encontro por São Paulo. Ainda não tive a oportunidade de ler, mas está na lista de desejos.


O livro e a pesquisa de Sidarta defendem que experiências oníricas podem ser fontes preciosas de insights para as nossas vidas.


Sidarta cria uma ponte entre saberes antigos e o que a ciência vem descobrindo sobre o cérebro. E ainda, percebe que existe um desequilíbrio entre a capacidade de realizar e a incapacidade de ver o mundo de uma forma diferente. Ele comenta que temos muitas ferramentas para inovar, construir, mas estamos estagnados na vivência primitiva de competitividade.


Para o pesquisador, o primeiro passo para voltar o contato com os sonhos é começar a escrevê-los em um “diário”. ele também aconselha a conversar com pessoas mais próximas (ou que você confia e se sente à vontade) a falar sobre o que foi sonhado. Ele acredita que anotando os sonhos e falando sobre eles, você poderá montar esse quebra-cabeça do inconsciente. Algo que foi sonhado há alguns anos pode se relacionar com um sonho mais atual, por exemplo.


3_ Extras


_Sereia-baleia

por Carolina Rolim


Sonhei com uma baleia. Ela me transportava em sua barriga. No início, eu sentia medo de me aproximar; ela nadava ao meu redor e batia sua imensa cauda. Com jeito, me acheguei ao seu lado e ela me conduziu até a outra ponta da praia: do mar à praia. E quando chegávamos na praia, era uma formação rochosa de igarapés… e ela chegava nesse lugar com tanta velocidade e, ao parar, era como se desse um “cavalo-de-pau” na água, rs.

A água era azul clarinha. As nadadeiras da baleia, quando seguravam minha mão, tinham a aspereza da língua dos gatos e eu adorava aquela textura, aquela sensação.

Então, quando acordei, fui buscar o significado desse sonho num livro de cartas xamânicas: “A baleia carrega a história da Mãe Terra. Segundo os biólogos, a baleia é um mamífero que possivelmente viveu em terra firme há milhões de anos. Segundo as tradições indígenas, a baleia imigrou para o oceano no momento em que a Terra sofreu uma grande transformação e se fendeu, submergindo o continente de Lemúria. A baleia viu todos os acontecimentos que ocorreram e guardou todo o conhecimento da vida na terra.

As pessoas do totem da baleia [xamanismo] entendem os sons que trazem recordações de todo o conhecimento antigo. São geralmente capazes de codificar todas as frequências do som. São desenvolvidas física e mentalmente. São telepáticas. Às vezes, porém, não percebem seus poderes até que necessitem usá-los. Muitas são capazes de ligar-se com a mente universal do Grande Espírito, sem ter a mínima ideia de como conseguem fazê-lo. Somente mais tarde, quando recebem a informação de seus dons, é que passam a saber como e porque.


A energia da Baleia nos ensina a usar sons e frequências para equilibrar nossos corpos emocionais e/ou curar nossos corpos físicos.”


_Rafaela: a planta que cura

por Mayara Maluceli


Marina Abramovic estava desenvolvendo um trabalho gigante em homenagem a um artista (já falecido) que ela admirava. E o sonho desse artista era ser enterrado na beira da praia. Então, o projeto de Marina era recriar essa praia (que na verdade era uma ilha) e enterrar o artista lá na areia.


Eu acompanhei Marina desde a concepção: do planejamento em maquete até a produção - a ilha existiu!


Ao chegar à ilha, o artista homenageado (reforço aqui: já falecido) estava sentado em uma cadeira, próximo das espumas das ondas. Era só o corpo, mesmo. Ele não estava mais vivo, nem reviveu.


Até que Marina, que engravidou em segundos, se deita na areia e se deixa levar pelas ondas. Ela entrou em trabalho de parto. Corro para pedir ajuda às pessoas, mas ninguém entendia o que eu falava. Era como se eu balbuciasse...


Quando volto para auxiliar Marina no parto, ela não estava mais na areia, e sim encostada em uma parede envolvida de uma planta com flores amarelas, com o bebê no colo. E, ela diz:


"Sempre guardo o nome de plantas que me curam, e essa se chama Rafaela".

No Spotify, criamos a playlist da Banca Vermelha. Para cada live, selecionamos algumas músicas que se relacionam com o tema. <3



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