• A Banca Vermelha

Dose Dupla #7 É quando as emoções viram luz e sombras


O sétimo encontro ao vivo da @abancavermelha falou sobre a sétima arte: o cinema!

Convidamos a colagista @manuelaeichner, que trabalhou lindamente no cartaz do filme “A Vida Invisível”, de Karim Ainouz.

Lirinha canta que o amor é filme, “é quando as emoções viram luz e sombras”. Diríamos mais: o cinema é a imagem do tempo em movimento.


Não é passado, nem passagem. É o agora.


Vamos apresentar a vocês algumas referências desse universo de 24 frames/segundo que temos guardadas em nossos corações e imaginários, pessoas e livros que levamos juntos para todas as nossas criações.


Preparem o balde de pipoca, e cola com nóis!



1_Biblioteca


_Iluminuras, de Ricardo Weschenfelder

por Mayara Maluceli


Encontrei o livro na Feira Miolo(s), de publicação independente, e logo me apaixonei pela forma em que o autor brinca com o cinema.


As ilustrações e a capa são feitas em colagem, pela Patti Peccin. Eu adquiri a segunda edição, 3º exemplar de uma tiragem de 25.


São pequenos ensaios sobre cinema e audiovisual com doses generosas de informações sobre o universo da sétima arte.


Cada ensaio carrega um título curioso e traz uma lista de referências sobre o tema abordado, de todos as áreas da arte: filmes, artes plásticas, filosofia e história.


Por página, Ricardo desenvolve um assunto que pode ser algo mais técnico do meio cinematográfico, até uma micro-breve biografia de algum cineasta.


Por exemplo, no ensaio “Nuvem”, Ricardo aborda o início do cinema e da ficção, e faz uma comparação da imagem com a consistência de uma nuvem.


Em “Geometria”, o autor traz conceitos sobre composição e perspectiva. Embora com conteúdo mais técnico, a forma de desenvolver o assunto é pura poesia.


Em “Selfie”, Ricardo fala do autorretrato na pintura até chegar na cineasta Agnes Varda.

Um dos mais belos autorretratos do cinema está em ‘As praias de Agnes (2008)’. A cineasta Agnes Varda dizia: “se você abrir uma pessoa, encontrará paisagens. Se me abrir, vai achar uma praia”. E praias não têm idade. São a mais remota imagem do tempo em movimento.

2_Biografia

_Suzana Amaral

por Carolina Rolim


Um programa pra falar de cinema é muito pouco! Meus planos pra esse encontro de hoje era falar sobre a (minha) deusa absoluta do cinema, Agnés Varda. Pensei também em falar sobre minha cineasta brasileira favorita, a Sandra Kogut. Mas tudo mudou quando eu conheci um pouco a carreira da cineasta Suzana Amaral, que fez a passagem no último dia 25 de junho, aos 88 anos de idade; e pensei em quantas coisa não vimos e não conhecemos na nossa formação visual. Sempre falo isso aqui na tentativa de abraçar tudo o que ainda for possível, apreendendo tudo o que for essencial.

A primeira informação interessante que soube sobre Suzana foi o fato de ela ter começado a fazer cinema aos 49 anos de idade. Na ocasião, ela já era mãe de 9 filhos. Ingressou na faculdade de cinema da ECA/USP em 1968.

Sua estreia na direção (e roteiro) de longas-metragens foi com a adaptação do livro “A Hora da Estrela”. O filme homônimo foi bastante premiado, elogiado. A atriz Marcélia Cartaxo ganhou o leão de prata, em Berlim, por sua atuação como Macabéa.

A guinada que Suzana deu na vida foi o caminho em direção à sua paixão de infância e adolescência, o cinema. No meio de toda a vida doméstica, ela escrevia poesias, contos. Antes de entrar na ECA, ingressou como aluna na primeira turma de cinema da FAAP e teve como professor Vilém Flusser! (Uau!)

“Ele foi muito bom, me proporcionou um crescimento existencial”.

O curso na FAAP era muito caro e em 1968, Suzana entrou na USP. Trabalhou em telejornal na TV Cultura, como repórter de rua, e depois, já como produtora na tv, decidiu fazer mestrado para iniciar sua carreira de cineasta, de vez!


Fez um documentário sobre o Vale do Paraíba e, em 1979, fez o documentário "Minha Vida, Nossa Luta", para sua tese de mestrado. Na periferia de SP ela conheceu Iracema Costa, que montou uma creche num galpão para atender sua comunidade. Suzana diz que esse doc foi muito importante pra vida dela. Suzana deu uma cópia do filme e um projetor para Iracema, que utilizava em todos os prédios onde ia, em SP, buscando (e conseguindo) apoio material pro movimento de creches na cidade, movimento no qual Iracema foi pioneira.


Suzana trabalhou como crítica de cinema na década de 90, na Folha de S. Paulo, e também foi professora na FAAP (SP).


Sabe como ela escolheu adaptar “A hora da estrela”? Aleatoriamente! Um professor na faculdade dizia que, se quisesse adaptar livro, tinha que escolher um fininho. Suzana foi passando o dedo na biblioteca pelos livros “fininhos” e parou no de Clarice Lispector.


Clarice dizia para ela buscar o que estava por trás das palavras. Para compor a personagem de Macabéa, Suzana sugeriu à atriz Marcélia Cartaxo que passasse a maior parte do tempo com uma camisola. Quando Marcélia volta da Paraíba pra filmar, a camisola voltou impregnada da personagem. Suzana também conversava com a atriz por cartas!


“Todas as mulheres são um pouco Macabéa. Eu me senti Macabéa em Nova Iorque.”

Na ocasião de sua morte, o site Revista de Cinema publicou uma matéria incrível sobre ela. Destaco aqui as aspas de Suzana no texto (que pode ser lido completo aqui):


Sensibilidade feminina – “Não acredito em sensibilidade feminina. Acredito mais no que tenho a dizer e busco transmitir o melhor possível. Me atraem os finais insólitos, intrigantes, metafóricos, abertos, nos quais o espectador tem espaço para se colocar e completar a estória. No final, levar o filme para casa e pensar. Cada um no seu jeito”.
Influências – “David Lynch? Antonioni? A comparação é elogiosa, mas penso que no mundo das artes não existe nada de novo. As influências circulam, se recriam. São como fantasmas vagando sobre todos nós, são atmosféricas, estão no ar, é o Espírito do Tempo. E muitas vezes são inconscientes. Na década de 70, o cinema alemão e europeu, de maneira geral, me atraíram bastante”.

3_Entrevista


Entrevistamos a colagista Manuela Eichner que trabalhou lindamente no cartaz do filme nacional "A vida invisível".



@abancavermelha

Manu, a gente conheceu o seu trabalho em colagens nos muros do Mundo Pensante, Lab Mundo Pensante; e depois eu me lembro que estava fresca a cola de um painel do Sesc Pinheiros, em São Paulo. E nunca mais deixei de te seguir, de te acompanhar. Você poderia contar pra gente um pouco da sua trajetória artística e como você descobriu a colagem como expressão?


@manuelaeichner

É um prazer conhecer vocês. É o nosso primeiro momento em que nos relacionamos e nos conhecemos.

Eu estava deliciada com a conversa de vocês, porque tem muitas referências que eu tenho. Quando vocês falaram de Agnés Varda, o filme "Os Catadores e Eu", influenciou muito minha vida.


Eu como colagista, agora eu assino assim (risos), antes era artista, agora que me especializei nesse movimento da colagem, eu boto “colagista”. Faz dez anos que entrei nessa linguagem.


Mas sou formada em escultura na Faculdade Federal do Rio Grande do Sul, e me formei com vídeo. Meus primeiros trabalhos como artista surgiram com vídeo performance e videoarte. Por isso achei bem conexão nesse contexto de cinema.

Eu tinha um coletivo chamado Mergulho que trabalhava com videoarte e pesquisávamos muito sobre vídeo e cinema.


Eu mudei para São Paulo em 2009. Gosto de fazer essa associação com a cidade, porque eu comecei a fazer colagem. Fui chamada para fazer uma ilustração, como artista é uma das vertentes que achei para trabalhar e sobreviver. Comecei a recortar, não desenho bem - não que eu acredite que tenha desenho bom -, mas na época não era minha linguagem. Então, comecei a fazer foto e recortar.


Tenho relação uma relação muito tátil com a arte. Por exemplo, eu queria fazer um cavalo, então, eu escaneava um pedaço de couro e fazia uma associação da textura, com aquela coisa sinestésica para aquilo estar na imagem.


Minha relação com a colagem começa muito tátil, muito orgânica, de apropriação das coisas.


@abancavermelha

Que legal você fazer essa ligação da criação de imagem com a tesoura. Eu lembro que me contaram que as primeiras montadoras do cinema eram mulheres costureiras, porque elas tinham a expertise do corte e da costura. O cinema é tão bom para falarmos de tanta coisa... Vou aproveitar para emendar com a segunda pergunta que são as projeções que você faz com colagem. Eu vi que você participou recentemente de uma live com o Guizado. Como é a elaboração desse roteiro pra projeção? Ou é totalmente improvisado?

@manuelaeichner

Foi legal esse retorno da colagem-live, eu chamava quando comecei a fazer, e agora tudo é live (risos). Thomas Harres me chamou para fazer um show no Centro da Terra, e foi totalmente no improviso. Mas eu tenho uma relação bem forte com improviso, eu amo. Eu fui conhecendo cada vez mais, e fui me utilizando disso.


Justamente você me lembrou do mural no Sesc Pinheiros... existe um plano,mas na hora quando você tem 23 metros e 8 metros de altura, coisas vão dar errado.

E aí eu percebi, principalmente no viés da performance, o quanto o improviso fazia parte, era caro, é importante pra mim.


Quanto voltei a fazer vídeos com essas colagens, eu pensei muito no improviso. Vou usar esse momento, esse sentimento, de ouvir a música, de deixar tomar conta do meu instinto e me apropriar disso. É um exercício de fazer colagem ao vivo que eu ainda estou experimentando.


A do Itamar Assunção foi sensacional! Eu tinha feito só uma no Centro da Terra, aí, acho que foi Anelis com mais alguém que teve esse projeto maravilhoso no Virada Cultural, que é o Itamar 70 - que é outra referência muito grande, maravilhosa e especial Itamar Assumpção.


Quando surgiu o convite, eu só tinha feito um teste, e de repente eu já estava fazendo colagens ao vivo por não-sei-quantas-horas. Isso só pra dizer que como artista às vezes a gente cai numas coisas e só no solavanco a gente vai aprender. Por exemplo, nessa experiência sem improviso foi extremamente importante para mim.


Eu entendi o tempo, em pausas, em silêncio. Percebi que algumas imagens precisam de mais tempo, respiro, como no cinema: como a imagem e o som interagem. Nesse dia, eu fiz loucuras (risos).


Tem essa coisa completamente analógica. Tem a transversal da imagem, mas os elementos são trabalhados analogicamente, e eu uso um programa o Resolume, e é repassado por algumas direções que eu já penso anteriormente de tratamento de imagem. Existe o improviso, mas eu me valho de algumas chaves.


@abancavermelha

O mural do Sesc Pinheiros é uma coisa incrível, mas eu fico me perguntando sobre a altura... não dá um frio na barriga?


@manuelaeichner

Menina, me dá um frio na barriga. Eu adoro umas aventuras, mas essa daí... E veio pra confirmar minha admiração por grafiteiros que trabalham com empenas e murais gigantes na cidade. É um trabalho fuerte!


Foi bem importante para mim esse mural do Sesc Pinheiros, porque eu já tinha feito pequenos murais internos. Mas esse apareceu com outras diretrizes: tem 8m por 23m e quatro dias para fazer. Para mim foi tipo: eu quero muito, mas como vou fazer isso?


Era uma homenagem ao "Rei da Vela", do Teatro Oficina que ia retornar. Então, eu me envolvi, eu fui ver os ensaios, aí ficava querendo ver mais (risos). E fui arrebatada por tudo isso. E aí foi mais fácil para criar. Ouvi muito Caetano Veloso e Tropicália para criar. Sempre escuto muita música. Todos são baseados em sons, para ter o feeling, a intuição e atmosfera.


Esse trabalho eu chamo de "Natureza Hipotecada", porque era essa ideia que a peça me trouxe: o quanto a natureza é hipotecada no mundo. A natureza está sempre à venda, e sempre foi assim.


@abancavermelha

Como surgiu o convite pra fazer o cartaz do filme “A Vida Invisível” e o que esse trabalho representa pra você? Eu lembro quando o filme estreou que você escreveu nas redes sociais "assistam a esse filme que veio para chutar o machismo de vez".


@manuelaeichner

Ah, eu estava empolgada achando que o machismo ia acabar mesmo (risos).

"A Vida Invisível" é um filme importantíssimo para o Brasil, e... chorei muito. Vi muitas vezes antes de criar.


O que é legal nesse trabalho é que eu sempre acompanho o processo de criação. No disco, eu escuto o som antes; texto, eu leio; então o filme eu vi antes. Fiquei viciada, chorei muitas noites, não consegui dormir algumas noites…


A Vitrine Filmes me chamou por causa de um trabalho que fiz para a Skol, para a campanha do Repost. Foi uma campanha importante da Skol, para fazer o mea-culpa histórico com todas as imagens de mulheres eram usadas na mídia. Então, convidaram mulheres para refazer cartazes.

Então, a Vitrine conhecia esse trabalho e achou que eu tinha tudo a ver com o cartaz do filme, que tem esse caráter super intimista e profundo das mulheres.

Então, quando o convite foi feito para mim foi via Vitrine.


Eu adoraria dizer que eu tinha uma relação com Karim Aïnouz. Eu não tinha (risos). Mas eu sou fã dele desde "Madame Satã", que foi um marco total na minha vida. Foi uma das coisas que me decidiu fazer faculdade de artes, tocou em lugares que têm que ser tocados.


Mas eu tive contato com ele… vi todas as referências do filme, eu vi os filmes referências para ele. Foi um processo grande. Foi um exercício difícil, porque é um filme muito triste.

O primeiro teste foi “dark”, todo escuro, fundo preto; foi a minha primeira reação que tive em traduzir em imagem foi assim. E aí fomos conversando e pensando que meu trabalho tem uma imagem alegre, tom vibrante, mas tem um lugar que pode te pegar, tem subjetividades, tem detalhes que te levam para outro lugar.

Então o cartaz foi criado nesse sentido.


@abancavermelha

Legal a gente falar sobre cartazes e a importância que isso tem para identidade visual do filme, porque esse ano rolou aquela violência em que arrancaram os cartazes da Ancine...


@manuelaeichner

Absolutamente. Tanto que eu acho que a gente percebe um retorno em que os cartazes voltam a ser obras de artistas, que não seja somente uma foto.


Inclusive, o meu cartaz de arte para “A vida invisível” era um fotão da Fernanda Montenegro, por que não?


Então, eu acho que existe, e eu acho maravilhoso, porque a arte tem um labor maior, além do artista, que vai para além da foto, qual a qualidade e intensidade que você quer dizer. Esse cartaz foi extremamente importante pra mim.


@abancavermelha

Pra finalizar, a gente adoraria saber quem/quais são suas referências.


@manuelaeichner

Minha vida é um caos é sempre randômico. Minhas referências vêm da música, do cinema, da rua, de vários lugares.


O cinema faz parte total das minhas referências: Agnes Varda, Os Catadores e Eu; Antonioni, David Lynch, "Limite" de Mario Peixoto.


Mas enfim, como eu tinha o grupo "Mergulho", a gente tinha uma relação muito forte de pesquisa, de ficar enlouquecido com videoarte.


No mundo das artes visuais, os artistas usaram muito videoarte, então, Bruce Nauman é um artista que eu amo muito.


Quando fiz a pesquisa para o "A vida invisível", os cartazes do Almodóvar vieram muito. As relações de cores. E é lindo porque Almodóvar tem muitos cartazes de arte, de pintura, que é trabalhado com colagem.


Que mais? Ah, e música... Caetano, Tropicália.


Na verdade, quando falamos de referência, mesmo que eu tenha estudado artes plásticas, estudei e tal, eu sempre fui muito ligado às artes mais contemporâneas, às artes dos 1960 em diante.


E também referências que são muito importantes são pessoas com quem trabalho, mais próximas, na colagem, no filme, na performance. Tem muita gente que é referência para mim.


Existe muito essa troca contemporânea, me interessa muito! #EXTRAS

Depois da nossa conversa deliciosa ao vivo, Manuela Eichner fez questão de citar duas referências importantíssimas na sua formação visual: 1) O filme "O medo devora a alma", de Rainer Fassbinder "Ah, esse filme <3 Obra-prima. Filmaaaaço! Vocês viram? Ele fez parte do meu tempo de criação do cartaz para o 'A Vida Invisível'. Era a referência do Karim".

2) A artista Hannah Höch "Minha referência mór, sobre a qual estou fazendo um trabalho." Foi uma das mais importantes representantes do movimento dadaísta e precursora da fotomontagem.


No Spotify, criamos a playlist da Banca Vermelha. Para cada live, selecionamos algumas músicas que se relacionam com o tema. <3






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